Do outro lado

18/03/2009

Do outro lado, tudo preto. E branco. Do outro lado do outro lado, tudo verde. E branco. Do outro lado uma nação. Do outro lado, um espião. De verde. E Preto. E Branco. Do outro lado estava uma nação. Incontestavelmente uma nação.

Do outro lado uma alegria contida; legitimamente extravasada. Legitimamente enlouquecida. A massa pulava. E gritava. E arrepiava. Até aquele que secretamente não era deste lado. Tão secretamente que logo passou a mão em seus braços. Em vão. A emoção não conhece lados.

Do outro lado, não havia o inimigo. Não foi isso que encontrou. Viu apenas que do outro lado havia as mesmas pessoas do seu lado. Só que de preto. E branco.

Do outro lado viu felicidade. Viu explosão. Viu redenção. Viu exatamente as mesmas coisas. Não  viu nada de diferente. Nada. Exceto uma coisa. Viu paixão. Em preto. Em branco. Mas lembrou-se da sua. Em verde e branco e, ao contrário daquele que precisa trair para dar valor, ao contrário daquele que desacredita, não era preciso nada disso para amar sua nação. Viu que amava ainda mais  sua nação. E viu mais: viu que todos que amavam, amavam da mesma maneira porque do outro lado só mudava uma cor. 

Mas, do outro lado havia a palavra exceto. Afinal, o que aquele do outro lado do outro lado fazia ali? Do outro lado, infelizmente, havia um fenômeno. Era deles. Esse fenômeno era deles. Numa simbiose que só quem estava lá viu. Num casamento perfeito dos guerreiros da redenção. Que só aqueles que são opostos podem compreender. Que só aqueles que amam da mesma maneira podem compreender. Que só aqueles que sofreram da mesma maneira, podem compreender. Que só aqueles que se odeiam da mesma maneira, podem compreender. Que só aqueles que compreendem que sem o Diabo não há Deus, podem compreender. E, nem que seja por um átimo, um olhar prontamente disfarçado, esquecido e escondido para todo o sempre no fundo da alma, torna-os cúmplices.

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06/03/2009

Aquele fio ali

A vida andava complicada mesmo. Andava mesmo. De caminhar. Não de parecer. 

Mas pior do que não ter dinheiro, pior do que engordar, pior do que fazer ginástica e pior do que trabalhar era não saber o que fazer com aquela quantidade de fios sob seus pés.

As mãos suavam frio, o coração palpitava, a boca secava. Todos os sintomas daquela doença moderna das grandes cidades. Todos. Ela sentia quando tirava uma foto e não contava para ninguém que ficava triste porque não iria colocá-la num porta-retrato. Era uma trabalheira e tantos caminhos e tantos fios e tantos USBs, que desistia. Ela sentia quando lamentava não ter filmado um momento e, embora essas filmagens fossem melancólicas e tristes lá na frente; embora o movimento daquilo que não está mais ali, daquele que era próximo; daquele que estava ali, olha, ali, comigo! Embora tudo fosse a verdade do que era, a prova do que tinha sido, impossível não saber que nunca assistiria a nada. No máximo uma vez. Para matar a saudade de sentir o que estava sentindo. Mesmo sabendo que era mentira. Mas faria. Se soubesse para quê servia aquele outro fio ali.

Quando ligava a TV para assistir a um filme que não conseguiria ir para frente ou para trás assim..fácil sabe? Perdia tudo. Até o dia em que resolveu que assistir a um filme em casa era como cinema….não podia parar! Aí, foi ao cinema mesmo.

O som? Da tv ou do Ipod? Tem que saber. Tem que ter. Mais de um. Um para fazer a ginástica que nunca ia, outro para escutar em casa quando recebia os amigos…onde? Naquele outro negócio que precisa comprar para colocar o IPod e ficar super! Ah! Hã? Ligo na tomada?Não? No notebook. Ah! Naquele que não é bege! Que não dá pau! Nunca! Que é  bonito! O quê? O Antônio Carlos não conserta? Quem conserta? Não se diz consertar nesses casos? Mas não quebrou? Não? Então aconteceu aquilo que nunca acontece? Perdi tudo? Tudo?Hã? Baixar o quê? Onde? Hã?  Ligo o quê? Ai…não recebo muita gente em casa… mas SE um dia receber, já sabe! É! Ah! Como aquele aparelho de chá da lista de casamento! Parcela? Ótimo! Em 8? Melhor! 

Era sozinha. Tinha tudo. Era moderna.  Foi trocar a música enquanto corria. Não achou a que queria. Tropeçou no cadarço. Estava na terceira parcela.

 

 

 

O homem feliz

 

Fazia algum tempo que observava o fenômeno. As pessoas ao seu redor ficavam agitadas. Falavam em voz alta várias coisas ao mesmo tempo. Ansiosas e sorridentes, transparecendo não a expressão dos medrosos, mas a dos felizes. Ficavam desastradas; estabanadas. Aquela fila interminável e demorada parecia sala de estar e não purgatório. Como podia ser? Seus pés não doíam, suas pernas não formigavam. A felicidade estava lá; estampada em seus rostos naquela situação angustiante. Imaginava então como seria a volta: meninas de chapéu de rato, meninos com tênis novos. Mocinhas com bolsas falsificadas de Chinatown. Meninos com camisetas de times de baseball. Senhoras e senhores tecendo críticas a respeito dos espetáculos da Broadway. A Bela e a Fera. Fantasma da Ópera embalando futuras cerimônias de casamentos. Saco.

Nova Iorque definitivamente não era mais a mesma. Há muito deixou de ser o destino dos vanguardistas, dos intelectuais, dos artistas. De pessoas como ele. Seu ofício era escrever e para tanto tinha que observar o cotidiano. Porém há algum tempo percebia que não conseguia mais fazê-lo com prazer. Tinha perdido a graça. O cotidiano não era mais interessante. Não tinha mais charme. De repente, o esperado: sentiu algo esbarrar com força em seu pé. Doeu e, antes mesmo que pudesse concluir o que aconteceu, veio um pedido de desculpas. Era a mala de uma criança logo seguida pelo pedido de desculpas de alguém que deveria ser seu pai. Foi a única troca verbal que fizeram. Num escrúpulo de segundo: os olhares. Fixaram-se mutuamente. Sentiu algo muito estranho. Não só interiormente mas até fisicamente. Era um enjôo, algo difícil de descrever. Sentiu o mesmo por ele.

Momentos depois, já acomodado em seu assento, olhou pela janela e viu, ao som abafado das turbinas, aquela movimentação do lado de fora. As malas em um carrinho. Nessa hora sempre tentava achar a sua. Nas vezes que conseguia acreditava poder seguir viagem tranqüilo. Era o sinal de que tudo correria bem. Quando não conseguia era tomado por uma aflição, um sentimento de culpa e abandono. Era um péssimo sinal. Imaginava então como estariam suas coisas lá dentro, que se reencontrariam somente após a chegada, como se não fossem seres inanimados mas suas amigas e companheiras. Sentia um amor por suas coisas, vontade de cuidar e de tê-las por perto. Pensava que se algo desse errado, morreriam juntos mas separados e ali era tudo o que reconhecia. Sentia-se profundamente só e melancólico. Virou-se novamente para o burburinho. Será que aquelas seriam as últimas pessoas e ver? Não. Seria muita injustiça. Por isso teve certeza de que nada aconteceria. Ele não poderia morrer dessa forma. Teria que ter suas últimas palavras. O péssimo sinal era para os fracos. Para aqueles que o acompanhariam. Sua presença os salvaria. Só não entendia como aquelas pessoas não pensavam assim. Desprezou-as. 

Sempre realizava esse ritual e quando chegava à conclusão que estava tudo bem, de que nada, segundo sua lógica, aconteceria, voltava sua atenção para dentro. Aquela iluminação típica, amarelada, aquele vai-e-vem entre cadeiras, malas maiores do que deveriam ser sendo erguidas por gentis cavalheiros. Viajar sozinho é assim. Observa-se tudo. Finge-se estar atento a um livro ou tenta-se ficar atento a um livro quando de repente vêm os pensamentos. A certeza de que aquela pessoa ao seu lado é infeliz, a profissão que deve ter, o dia-a-dia de determinada família. Sempre pensava dessa maneira antes da decolagem. Lembrou-se de suas aulas de yôga. Era um perfeito paralelo. Engraçado. Lá também fingia estar concentrado em algo enquanto pensava na vida alheia. Algo bem mais forte e fora de seu controle acontecia. Enquanto entoava algum mantra, seu olho, um único, involuntariamente se abria e observava a expressão de cada um. As pessoas, mesmo sem nunca terem conversado, eram suas íntimas. Estava lá a moça com tatuagens modernas que ostenta um anel na mão esquerda, uma aliança. Com certeza é uma chata, implicante no trabalho, pseudo-intelectual e, em casa é uma submissa. Moderno que é moderno não usa aliança. Muito menos de ouro! Está aqui porque a Madonna também estaria. Deve estudar Cabala. Não falei? Olha a fita vermelha no pulso! Mistura tudo. O moderninho e o convencional. Aposto que foi à exposição do Picasso. Não posso ser assim. Tenho que parar de ser assim. Mas por que essa senhora, dona-de-casa (tenho certeza), com meias de supermercado e collant tem que sentar ao meu lado? Vai chegar em casa e fazer o jantar. Não, a janta. O bife. O marido e as crianças gostam. Já ouviu falar de Picasso mas não tem coragem de propor uma visita ao seu marido. Vai ofendê-lo. E o professor? Quando o observa, sente uma vergonha interna pelo outro. Como quando assistimos a algo constrangedor na televisão. Ruborizamos, escondemos o rosto, apertamos o mudo, mudamos de canal para logo depois voltar e torcer para que já tenha acabado. Com o professor não dá e então vêm as críticas já que esse não tem mais nada o que fazer. Fica aí cantando mantras e ganhando dinheiro. O meu dinheiro. Fala sânscrito? O que é sânscrito? Ah! Tem a cultura do Seleções. Mistura a Índia com a novela das oito. Fala com essa calma, manda os outros imaginarem uma praia deserta, sendo que só ele tem tempo de ir. Falso, vende uma vida irreal. Ridícula essa profissão. Estudou onde? É budista? Explique. Disserte.  Maldita Madonna. Maldito estresse. Maldita moda. Tenho que me concentrar na aula. O que faço aqui?

O que fazia ali? Naquela classe econômica de avião. Lotada de pessoas felizes e fúteis. Pessoas que viajam nos feriados, vão à praia no Reveillon e no carnaval obrigatoriamente têm que estar felizes. Faça chuva ou sol. Adoram sair de madrugada para não pegar trânsito. Nada pode entristecê-los. E, agora, vão a Nova Iorque nas férias. Era só o que faltava. Giuliani desgraçado! Meu Deus, aquela sensação da televisão novamente. Não! As pessoas estão batendo palmas após a decolagem! Preciso ganhar dinheiro, preciso ganhar dinheiro, tenho que ir de executiva, não pertenço a esse mundo, não falo sua língua, não quero casar, não quero ter filhos, não tenho religião, não suporto quem tenha, pertenço a outro mundo. Sou melhor que isso! Sou muito melhor que isso! Por que esse homem está me olhando? Por que olho para ele? Que família é essa? Esse idiota que finge ser feliz com sua mulher e casal de filhos! Por que todo feliz tem que ter um casal de filhos? Uma menininha e um menininho! Saco! Não consigo parar de olhá-lo! Vou vomitar! Pare de…

Uma mão doce tocou a sua. Olhou para o lado e reconheceu sua família. O avião pousou. Bateu palmas. Na cadeira do outro lado do corredor aquele homem sorriu um sorriso cúmplice. Foi a última vez que seus olhares se cruzaram, mas, novamente, nesse átimo de segundo conversaram. E entenderam-se. Era agora, um homem feliz.

06/03/2009

Natal

 

Um a um eles foram entrando. Aos poucos toda a família foi chegando. Aos poucos a sala foi se enchendo de filhos, netos e bisnetos para enfim, os ruídos, o burburinho, a gritaria e a correria darem o tom da festa que finalmente começava.
   Todo Natal era assim. Desde quando casou o último filho. Os cinco
filhos casaram em pelo menos três anos. Isso foi quando? Eles até se
lembravam, porém a memória não podia estar boa. Era o que falavam. Todos. Mas
para festa de Natal que é bom ninguém nunca os convidava. Era assim, como
que sabido que seria nessa casa.

Os parentes chegavam e ficavam cinco minutos, nem isso, fazendo os
cumprimentos para os anfitriões e saíam. Saíam para conversar conversas de
gente jovem. Conversas que não aborreciam. Beliscavam os petiscos que a empregada
preparara durante todo o dia. Uma ou outra nora se lembrava de trazer alguma
sobremesa. Até ligavam no dia anterior para perguntarem pela obrigação. Mas
era uma ou outra. Sabiam que um ano duas ligavam e no outro, três. Devia ser
uma briga silenciosa que não chegava neles.

O casal sempre trocava olhares cúmplices que ninguém percebia porque eram
velhos. Cinqüenta anos de casamento felizes. Sim, porque eles eram felizes.
Eram mesmo. Cúmplices. Eles conversavam entre si. Eles ainda iam ao cinema.
Não mais de carro porque se algum filho por acaso ligasse, sempre falava que
de carro não porque podia acontecer alguma coisa. Com os outros. Então iam
de táxi e ninguém ligava. Eles ainda se amavam. Uma vez, a nora mulher do
Alfredo pegou um desses olhares e fez cara de nojo. Não foi nada obsceno. Imagina! Mas foi um olhar de amantes.

Esta noite estava um pouco diferente. Há três semanas o marido foi ao médico
e soube o que já os afligia há algum tempo: estava doente mesmo. Câncer.
Próstata. Desses sem cura porque não foi detectado a tempo. Nisso eles não
eram como os velhos. Não gostavam mesmo de médico nem de remedinhos. O marido também tinha lá suas reservas com o exame.

Olhavam-se mais que de costume. Mas também um olhar mais
cúmplice. Quem percebeu isso também foi Marcos, o neto de doze anos, filho
do filho mais velho. Justamente daquele que ligava para falar do carro.
Marcos era amigo. Gostava dos avós que tinham três companhias constantes e
verdadeiras: Marcos, a empregada e Tamborim, o gato que também era velho.
Velho e fiel, para surpresa dos outros que não têm gato. Nessa noite eram o
casal, o Marcos e o Tamborim, que entre uma dormidinha e outra era expulso
do sofá por gente com cara de nojo. Coitados dos gatos! Tamborim, nessas
horas de perdição como em uma mudança, ficava à deriva, fugindo de uma
puxada de rabo de um bisneto criança e de um chute disfarçado de algum
adulto. As mulheres sempre tinham a mesma reação de passar a mão para tirar
o excesso de pêlo das calças ou saia. Tamborim ainda era meloso. Esfregava
seu corpo para atrair um pouco, um nada de atenção. Mas ninguém o
compreendia mesmo. Era instintivo porque, Tamborim, nem pêlo soltava mais.
Nessa hora sempre aparecia Marcos e salvava Tamborim. Desde pequenino Marcos
fazia isso. Tamborim era mais velho que ele! Recebia afagos no pescoço,
atrás das orelhas e no nariz. Gato gosta disso e não de barriga! Gato e
cachorro são diferentes! Quem trata gato como cachorro fica decepcionado e
depois sai por aí falando mal do gato.

O tempo inteiro eles ficaram sentados no sofá e há anos viam toda a cena se repetir
 e, embora ninguém percebesse, eles conversavam. Também sobre isso. Não com tristeza. Com humor até. De vez em quando algum familiar percebia a conversa e ficava admirado. Olha! Que lindos! Tantos anos juntos!

– Quantos anos de casamento mesmo? Se fosse nos dias de hoje…

Riam-se.
   Depois da ceia, um pouco depois da meia-noite, abriam-se os presentes. Esse
momento era particular porque para eles, sempre presentes que não eram para
eles! Aliás, nem para eles, ele ou ela. Para a casa. Era um vaso. Uma
vela. De uns anos para cá ganhavam muitas velas. Ou era moda ou era recado!
Riam disso mesmo depois que os parentes iam embora. Apostavam antes até.
Marcos sempre trazia o que podia, claro, mas um para cada. Para o avô um par
de meias e para a avó uma camisola. Era a mãe que comprava. Nunca sem uma
briga antes. Ele falava que não queria mais dar isso, mas a mãe perguntava o
que e onde dois velhos iriam fazer com algo diferente? Nem saem de casa! E assim era.

Nessa noite, aconteceu uma coisa
diferente. Depois da ceia, como de costume, começaram a abrir os presentes e
as pessoas ficaram andando de um lado para o outro, mostrando o que haviam
recebido. Os ruídos eram mais intensos a ponto de virarem barulho mesmo. Um
falatório que já tornara impossível reconhecer alguma voz. O olhar cúmplice
de sempre, ninguém percebeu. Como num susto ela se levantou. Olhou para trás
e sem dizer ao menos uma palavra, estendeu a mão. Ele levantou-se e deu-lhe
a mão. Juntos deram um beijo na testa de Marcos e um afago no Tamborim. O
bicho ronronou e agradeceu. Caminharam até o terraço. O gato deu um pulo do
colo de Marcos que sentiu uma lágrima sem desespero correr-lhe pelo rosto.
Tamborim esfregou uma saudade na grade da varanda e foi para a cozinha.
Marcos foi atrás e viu que o gato não tinha comida nova. Colocou mais um
pouquinho. Aproveitou e colocou água fresca também. Voltou para a sala e
esperou a festa terminar.